Caetano,
Gil, Gal e Bethânia se reúnem para dois únicos shows no Rio e em São Paulo;
encontro vai virar DVD e CD.
Mônica
Loureiro.
Nós somos medalhões!". É claro que a afirmação não soa exagerada quando é Caetano
Veloso que diz, referindo-se a ele próprio, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal
Costa. Após 26 anos, os quatro baianos se unem novamente sob a alcunha de Doces
Bárbaros, para dois shows ao ar livre - um amanhã (dia 7), no Parque do Ibirapuera
(SP), e outro domingo (dia 8), na Praia de Copacabana, (RJ). O reencontro -
sem dúvida um marco na história da MPB - vai resultar em um CD que será lançado
pela Universal Music e um DVD, dirigido por Andrucha Waddington, que sairá pela
Biscoito Fino. O pacote celebratório se completa com o relançamento do documentário
Doces Bárbaros, de Jom Tob Azulay, registrando a turnê original da
formação, em 1976. O filme virá em DVD, com som remasterizado e cenas extras.
O tempo foi pouco para os ensaios - Caetano, por exemplo, retornou dos Estados
Unidos na semana passada - mas todos garantem que está tudo acertadíssimo. "No
primeiro dia de ensaio havia uma certa ansiedade, mas quando começamos a cantar
ficou tão bom!", revela Bethânia”. Até poderia se pensar que o distanciamento,
as separações poderiam ter interferido, mas não", reafirma Gil, que é o diretor
musical do show. "Aliás, Gil já dirigia nossos primeiros shows amadores na Bahia",
ressalta Bethânia.Eles lembram que este não é o primeiro reencontro depois da
memorável reunião de 1976: voltaram a se reunir na Mangueira, quando foram homenageados
com o enredo Atrás da Verde e Rosa Só Não Vai Quem Já Morreu, em 94;
e ano passado, numa homenagem a Dorival Caymmi no Carnaval baiano. O encontro
original foi concretizado a partir de uma idéia de Bethânia. "Dessa vez, foi
um convite (o show marca os dez anos do projeto Pão Music, patrocinado pelo
grupo Pão de Açúcar), mas a espontaneidade não se perdeu por causa disso. Acabei
de passar Esotérico com Gal e sentimos uma alegria muito grande ao
perceber que ainda há um clima de novidade, nada está velho", defende Bethânia
durante a entrevista coletiva dos quatro na produtora de Gil, na Gávea (RJ).
Enquanto a idéia da união veio da irmã, Caetano se encarregou de dar o nome
ao grupo. "Eu lembro que na época da primeira reunião, o jornal O Pasquim tinha
uma linha de ataque contra nós, só pelo fato de sermos baianos. Falavam que
o Rio tinha sido invadido por bárbaros! Daí veio o nome. Também teve um papo
na Praia de Ipanema com Jorge Mautner, que ele falou que Jesus, com sua doçura,
conseguiu derrubar o império dos bárbaros... Então achamos que o nome era adequado
mesmo", diz Caetano, surpreendendo até mesmo os outros três, que não sabiam
dessa "inspiração" de Mautner. O repertório do show tem 23 músicas, inclusive
uma inédita de Gil. "Eu compus uma música falando justamente desse nosso reencontro.
Ela se chama Outros Bárbaros", diz ele. "Tem também o samba de roda
Santo Antonio, de J. Veloso, sobrinho meu e de Caetano", acrescenta
Bethânia. A cantora revela que cada um fará dois solos, com músicas de seus
discos mais recentes, e cantam cerca de sete canções juntos - como Fé Cega,
Faca Amolada e São João Xangô Menino, por exemplo. "Vou cantar
Eu Te Amo, porque a gravação que fiz na época da primeira reunião não
me satisfez. Em algum momento eu iria regravá-la, e acho que esta foi a melhor
oportunidade que eu poderia ter", diz Gal. Depois de três décadas, é lógico
que algumas mudanças serão notadas no show, detalhes que foram motivos de gargalhadas
- mas com algum incômodo - durante a coletiva. "Os tons estão mais baixos em
geral, hoje meus graves são bem mais acentuados...", diz Gal. E Bethânia capricha
na ironia ao responder se pretendem repetir o guarda-roupa hippie dos anos 70:
"Ah, não dá, neném... E o barrigão de fora?". "Acho que na época eu
tinha a idéia de parodiar os Novos Baianos, com aquelas roupas com traços étnicos,
como uma civilização inventada... E nós éramos os 'Velhos Baianos'", compara
Caetano. "É, velhos já naquela época!", brinca Gil.