Maria
Bethânia é a reunião dos quatro elementos. Tem o veneno e o antídoto da vida.
Canta o que vale a pena recordar. É exatamente o que é. O que faz sentido: amor.
Ela vive, suporta e se prepara. Escrever sobre ela exige punho firme, voz ativa,
olhos sinceros. Caminhar em seus entremeios é encantar-se pela sua resistência
em função do que sempre quis cumprir. E sabia que tinha que cumprir. Ela foi
predestinada ao palco, à magia. Não havia outra solução. Chegar até Bethânia
por obra do destino é descobrir nossa própria alma guerreira. E sentir alívio
ao ver o fogo, fulgir e fundir-se, coabitar com ele. Ter por perto seus pequeninos
e intensos olhos brilhantes requer cuidado. Ali estão seus perceptores do exterior,
mundo arisco que pode atingi-la. Por isto é que se guarda um pouco. Mas quando
sente a possibilidade de nascer, nada mais belo no mundo. Nada mais sincero
que a delicadeza de suas ilusões, sua aura, seus portos seguros ou luz de uma
pessoa vitoriosa.
Que
não pode fazer mal nem a mim, nem a ninguém, nem a nada. Mas não é fácil. Bethânia
só se revelará por inteiro para quem estiver livre. Para existir livre. Nu.
E sangrar vida por todos os poros. Receber vida por todos os sentidos. Ela é
que nasceu mais cedo. Embora isso roube a calma de algumas pessoas. Procure-se,
explore seus sentidos. Encontrar-se-á com ela. Inebriando-lhe. Caminha especialmente
ao lado do verão, que leva mais fortemente seu contágio. Este recusa o fim dos
sonhos. Tem as mãos cheias de juventude e fidelidade. Para banhar-se na luz
dos raios desta filha de Yansã basta apenas não fugir da febre. Cuidem dela.
Porque de seu peito brotam os sons que as pessoas cantarão para ver renascer
a vida. (1980)