Maria Bethânia sob o olhar de Carole Chidiac

Maria Bethânia é a reunião dos quatro elementos. Tem o veneno e o antídoto da vida. Canta o que vale a pena recordar. É exatamente o que é. O que faz sentido: amor. Ela vive, suporta e se prepara. Escrever sobre ela exige punho firme, voz ativa, olhos sinceros. Caminhar em seus entremeios é encantar-se pela sua resistência em função do que sempre quis cumprir. E sabia que tinha que cumprir. Ela foi predestinada ao palco, à magia. Não havia outra solução. Chegar até Bethânia por obra do destino é descobrir nossa própria alma guerreira. E sentir alívio ao ver o fogo, fulgir e fundir-se, coabitar com ele. Ter por perto seus pequeninos e intensos olhos brilhantes requer cuidado. Ali estão seus perceptores do exterior, mundo arisco que pode atingi-la. Por isto é que se guarda um pouco. Mas quando sente a possibilidade de nascer, nada mais belo no mundo. Nada mais sincero que a delicadeza de suas ilusões, sua aura, seus portos seguros ou luz de uma pessoa vitoriosa.

Que não pode fazer mal nem a mim, nem a ninguém, nem a nada. Mas não é fácil. Bethânia só se revelará por inteiro para quem estiver livre. Para existir livre. Nu. E sangrar vida por todos os poros. Receber vida por todos os sentidos. Ela é que nasceu mais cedo. Embora isso roube a calma de algumas pessoas. Procure-se, explore seus sentidos. Encontrar-se-á com ela. Inebriando-lhe. Caminha especialmente ao lado do verão, que leva mais fortemente seu contágio. Este recusa o fim dos sonhos. Tem as mãos cheias de juventude e fidelidade. Para banhar-se na luz dos raios desta filha de Yansã basta apenas não fugir da febre. Cuidem dela. Porque de seu peito brotam os sons que as pessoas cantarão para ver renascer a vida. (1980)