Bethânia
tem o porte magro e agreste, chuvoso.
Quem
a vê, logo percebe que pende mais para o fenecimento do que para aquele estágio
em que um ser ameaça desabrochar e prometer-se para a vida. Aí, perguntamos:
de onde tanto desalento? Em que paragens soturnas e mal habitadas vagueou seu
sentimento? Explicar Bethânia...sua visão do mundo é um programa de estradas
interrompidas, conduzindo ao imponderável. Seu desempenho na vida é fascinante.
Coube-lhe um grande papel, e ela constrói seu palco e se conflita nos personagens
que ama, e se guerreia e dá de ombros para os acontecimentos, dá de lixar-se
para tudo e para todos - forma agressiva de ofender o mundo preconceituoso que
a vigia e cerca. Assim vai caminhando com um manto negro sobre os ombros ossudos,
de olhos às vezes vendados, mas com todos os sentidos em susto. Parece uma árvore
fibrosa, cheia de machucaduras, vergastada por ventos, aqueles que sopram tramando
sustos e pondo barcos à deriva. Com ar de quem desobedece a todos os desígnios.
Bethânia está fatalizada pelo seu canto, onde se fundem as raízes mais negativistas
da vida, onde confessa as preterições e exalta a compaixão e o tédio. Assim
a vejo: de seios à mostra, desnorteando o mundo desavisado e sem rumo que desfila
atônito ante sua voz cheia de asperezas. Que soluções anda buscando para suas
privações? (Ouço-a agora, e parece que há tanto tempo a ouço, que a sensação
que me dá é que sempre esteve aqui, mas que não tarda a partir). Essa é Bethânia.
Pelo destino de seus brados já se vê para que veio: inquietar, desacomodar certos
sentimentos, admoestar os covardes e juntar-se aos fortes encostados no muro.
Misturão de angústias é o que ela é: e aí vai dar-se absolutamente toda e doida
na imensa rua onde habitará o imenso assobradado escuro, sofregamente triste
e sozinha, alucinada para embebedar-se de vida. Lanhos na alma, por vezes se
deixa vencer pela paixão, e aí varre os quatro cantos do sentimento com seus
olhos crespos e a voz escamosa, escavando o vulgar e o genial com a mesma facilidade.
Dizem que cultiva um enorme prazer de confundir e desesperar quem a cerca. Sua
defesa, talvez. Estranha defesa, convenhamos, para quem se diz forte, e chora.
Estranha arma para quem, nas entranhas, cultiva a roseira (e dela os espinhos).
Mas sabe como ninguém se desarvorar, chorar pelos cantos da vida, clamar publicamente
e denunciar suas fatalidades. Isso está fazendo agora, quando a ouço cantar.
Então se deságua e remói as dúvidas e arranha as cicatrizes mal reparadas. Chegou
Bethânia e nem precisava o aviso: acenderam-se as fogueiras, damo-nos todas
as mãos. E ela - animal colérico - se queima em paixões, se arde em fogos os
mais violentos e põe-se a explicar seus ferimentos, a acariciar a palavra amor
como se a mordesse e ferisse. Reparem Bethânia: está agora lívida, olhos injetados
de um sentimento misterioso, meio amor e ódio. Sim, não veio à toa para a rua,
onde todos nos desesperamos.
Sua visão despreconceituosa da música popular chega a ser desconcertante e porque
não dizer? - incômoda. Porque nos desacostumamos com certas verdades (a vida,
essa queimação) que ela vai beber, e que nos canta com insolência. Ela, que
era mais intérprete do que cantora (me entenderam, eu sei), agora esta se movendo
no grande continente do som, num estado de procura que cheira à febre. E assim:
atenta, mergulhada até o desmaio. Esse disco nos revela isso. Maria nos faz
percorrer um mundo de canções que deixou se vestirem das roupagens às vezes
as mais insólitas. Mas ela é um ser que não percorre um mesmo caminho: ao voltar,
sempre procura outra estrada para não se ambientar a umas tantas sombras e pedras.
Neste disco, ela despediu-se das rendas para enfeitar-se de colares, e apegar-se
aos bentos e guias de suas vertigens místicas mais recentes. Mas em seu entendimento
da vida e do amor (e as malhas e tranças dessas tramas) continua lúcida. E se
alteia e verga e se deixa açoitar pelas palavras que profere em seu canto cheio
de existencialidade. Guerreira, ela medita o que foi caminhado e o que está
pela frente. Reconhece que se abriram fendas: os terços revelaram-se inúteis,
e é preciso acender velas. Em meio de saravás, ela risca o chão com pés descalços,
arma seus búzios na necessidade de decifrar a sorte que lhe caberá. "Se o caminho
é este, vamos andá-lo até a exaustão” - parece dizer.
Maria alumiou, há um sol que, embora pálido, vem promover sua anunciação. E
ela vem e vai por aí, vagueando estonteada com suas mãos fortes, cônscia de
suas dúvidas e tombada num sofrimento enorme, e onde berra sentidamente a solidão
irreparável que a consome, e o percebemos.