Bethânia sob o olhar de Hermínio Bello de Carvalho

Bethânia tem o porte magro e agreste, chuvoso.

Quem a vê, logo percebe que pende mais para o fenecimento do que para aquele estágio em que um ser ameaça desabrochar e prometer-se para a vida. Aí, perguntamos: de onde tanto desalento? Em que paragens soturnas e mal habitadas vagueou seu sentimento? Explicar Bethânia...sua visão do mundo é um programa de estradas interrompidas, conduzindo ao imponderável. Seu desempenho na vida é fascinante. Coube-lhe um grande papel, e ela constrói seu palco e se conflita nos personagens que ama, e se guerreia e dá de ombros para os acontecimentos, dá de lixar-se para tudo e para todos - forma agressiva de ofender o mundo preconceituoso que a vigia e cerca. Assim vai caminhando com um manto negro sobre os ombros ossudos, de olhos às vezes vendados, mas com todos os sentidos em susto. Parece uma árvore fibrosa, cheia de machucaduras, vergastada por ventos, aqueles que sopram tramando sustos e pondo barcos à deriva. Com ar de quem desobedece a todos os desígnios. Bethânia está fatalizada pelo seu canto, onde se fundem as raízes mais negativistas da vida, onde confessa as preterições e exalta a compaixão e o tédio. Assim a vejo: de seios à mostra, desnorteando o mundo desavisado e sem rumo que desfila atônito ante sua voz cheia de asperezas. Que soluções anda buscando para suas privações? (Ouço-a agora, e parece que há tanto tempo a ouço, que a sensação que me dá é que sempre esteve aqui, mas que não tarda a partir). Essa é Bethânia. Pelo destino de seus brados já se vê para que veio: inquietar, desacomodar certos sentimentos, admoestar os covardes e juntar-se aos fortes encostados no muro. Misturão de angústias é o que ela é: e aí vai dar-se absolutamente toda e doida na imensa rua onde habitará o imenso assobradado escuro, sofregamente triste e sozinha, alucinada para embebedar-se de vida. Lanhos na alma, por vezes se deixa vencer pela paixão, e aí varre os quatro cantos do sentimento com seus olhos crespos e a voz escamosa, escavando o vulgar e o genial com a mesma facilidade. Dizem que cultiva um enorme prazer de confundir e desesperar quem a cerca. Sua defesa, talvez. Estranha defesa, convenhamos, para quem se diz forte, e chora. Estranha arma para quem, nas entranhas, cultiva a roseira (e dela os espinhos). Mas sabe como ninguém se desarvorar, chorar pelos cantos da vida, clamar publicamente e denunciar suas fatalidades. Isso está fazendo agora, quando a ouço cantar. Então se deságua e remói as dúvidas e arranha as cicatrizes mal reparadas. Chegou Bethânia e nem precisava o aviso: acenderam-se as fogueiras, damo-nos todas as mãos. E ela - animal colérico - se queima em paixões, se arde em fogos os mais violentos e põe-se a explicar seus ferimentos, a acariciar a palavra amor como se a mordesse e ferisse. Reparem Bethânia: está agora lívida, olhos injetados de um sentimento misterioso, meio amor e ódio. Sim, não veio à toa para a rua, onde todos nos desesperamos.

Sua visão despreconceituosa da música popular chega a ser desconcertante e porque não dizer? - incômoda. Porque nos desacostumamos com certas verdades (a vida, essa queimação) que ela vai beber, e que nos canta com insolência. Ela, que era mais intérprete do que cantora (me entenderam, eu sei), agora esta se movendo no grande continente do som, num estado de procura que cheira à febre. E assim: atenta, mergulhada até o desmaio. Esse disco nos revela isso. Maria nos faz percorrer um mundo de canções que deixou se vestirem das roupagens às vezes as mais insólitas. Mas ela é um ser que não percorre um mesmo caminho: ao voltar, sempre procura outra estrada para não se ambientar a umas tantas sombras e pedras. Neste disco, ela despediu-se das rendas para enfeitar-se de colares, e apegar-se aos bentos e guias de suas vertigens místicas mais recentes. Mas em seu entendimento da vida e do amor (e as malhas e tranças dessas tramas) continua lúcida. E se alteia e verga e se deixa açoitar pelas palavras que profere em seu canto cheio de existencialidade. Guerreira, ela medita o que foi caminhado e o que está pela frente. Reconhece que se abriram fendas: os terços revelaram-se inúteis, e é preciso acender velas. Em meio de saravás, ela risca o chão com pés descalços, arma seus búzios na necessidade de decifrar a sorte que lhe caberá. "Se o caminho é este, vamos andá-lo até a exaustão” - parece dizer.

Maria alumiou, há um sol que, embora pálido, vem promover sua anunciação. E ela vem e vai por aí, vagueando estonteada com suas mãos fortes, cônscia de suas dúvidas e tombada num sofrimento enorme, e onde berra sentidamente a solidão irreparável que a consome, e o percebemos.