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Hoje faz exatamente 40 anos que Maria Bethânia desembarcou no Rio. Aos 18 anos veio substituir Nara Leão no já histórico musical “Opinião”. No dia seguinte ao 13 de fevereiro de 1965, ela foi ao Teatro Opinião (hoje o Arena, em Copacabana) ensaiar e, além do pessoal da peça — Zé Keti, João do Vale, Augusto Boal, Ferreira Gullar etc. — a primeira figura que conhece é Vinícius de Moraes, que praticamente a adota. O acaso, já que o disco está pronto há mais de um ano, faz com que “A falta que você me faz” (Biscoito Fino), dedicado à obra de Vinícius, saia junto com a festa de 40 anos de carreira, que a cantora celebra no show “Tempo, tempo, tempo, tempo”, que estréia dia 24 no Canecão.
Gravado há mais de um ano, o acaso fez com que o CD dedicado a Vinícius venha no 40 aniversário de sua chegada ao Rio. Como interpreta esse acaso?
MARIA BETHÂNIA: Eu sempre quis fazer alguma coisa com a obra de Vinícius. Ele foi a primeira personalidade, o primeiro intelectual, o primeiro artista que eu conheci no Rio, quando cheguei no Opinião. Dez minutos depois de chegar ao teatro, ele entrou. E Tereza Aragão me apresentou a ele. Nunca quis forçar nada, mas um dia faria algo com a obra do Vina. Dois anos atrás me veio uma vontade, eu me via cantando canções dele, vontade de visitar a praia onde ele tinha casa na Bahia... Saudade dele. O nome do disco é este, “A falta que você me faz”, porque não há outra coisa a dizer.
Que falta é essa?
BETHÂNIA: Da inteligência, da maneira de conduzir a vida, do pensamento, da orientação da vida dele. A mim ele ensinou muito. O que é que ele privilegiava, o que ele botava em primeiro lugar. Eu sinto muita falta disso no mundo. E perto de mim também. Acho que na nossa música falta um poeta como ele. Na amizade falta um homem com a maturidade de Vinícius e a criancice dele, iluminada. A predileção pelo amor.
O disco começa angustiado em “Modinha”, dizendo que “não pode mais meu coração viver assim dilacerado”. E acaba celebrando o amor, na versão de Caetano para “Nature boy”, “Nada é maior do que dar amor/E receber de volta amor”.
É essa sua visão de Vinícius?
BETHÂNIA: Essa música, “Nature boy”, o Vinícius cantava toda noite durante uma temporada de shows que fizemos numa praia argentina, Vinícius, Toquinho, Chico e eu. Antes de dormir, ele cantava como se fosse uma oração. E cantava lindo. Procurei então a gravação de Vinícius porque é a chave dele. Comentei com Susaninha (de Moraes, filha de Vinícius), que me disse ser a música com que ele a ninava. É uma música de sempre para ele. Começa com “Modinha”, que é um drama, mas é o poeta Vinicius que, com toda a alegria, com toda animação, com toda a negritude dele, com toda a esculhambação, era um poeta, um sentidor , e também muito amargurado, como toda pessoa sensível. Tudo isso dói, a vida dói.
Isso tem a ver com sua angústia quanto à ausência dele?
BETHÂNIA: Não só a ausência, tem a ver com qualquer criador. Quem sou eu para me comparar ao criador que é Vinícius de Moraes. Mas de algum modo trabalho com criação, com sensibilidade, sentimento. E é nisso que eu tenho sentido muita falta de pessoas como Vinícius, e dele particularmente.
Caetano costuma falar de certa reação negativa à sua chegada por parte da inteligência carioca. Vinícius era a quintessência dessa inteligência.
Não houve conflitos?
BETHÂNIA: Na minha chegada fui recebida de braços abertos. O Rio me recebeu lindamente, os intelectuais, os autores do “Opinião”, os cantores etc. O que aconteceu, e isso eu soube recentemente refazendo os Doces Bárbaros, é uma conversa mais entre Caetano e Gil, de autores, de compositores, de intelectuais, de homens. Gal e eu éramos as meninas que cantavam. E eu ainda não pensava nisso. Era muito menina mesmo, não só na idade, mas também na liberdade, era muito solta, livre. E não achava que nada disso era sério, achava que era por alguns dias, que eu iria me divertir muito e que voltaria às gargalhadas para a Bahia. No encontro com Vinícius, quando fomos apresentados, demos uma gargalhada um pro outro. Ele ria das coisas que eu dizia, acompanhava minhas entrevistas. Era o paizão, o irmão mais velho, o amigo, o namorado...
O namorado?
BETHÂNIA: Sim. Vinícius nunca na vida fez um gesto que não fosse para enfeitiçar, para seduzir. Mas era rigoroso comigo. O que eu queria era aprender a fazer o show. E aí percebi que era fazer aquilo para o resto da vida o que eu queria. Tive das pessoas mais lindas da minha vida, Tereza Aragão, Ferreira Gullar, Vianinha, João do Vale, Zé Keti, nem braços abertos, mas um botar no colo, um ninar, um acarinhar. E Vinícius extremado, querendo saber a hora em que eu cheguei, o que eu comia. Controle de pai. E isso sem compromisso nenhum, ele era só um fã do “Opinião”. E quando me conheceu, gostou muito da minha voz, do meu jeito. Ele sempre me dizia: “Você tem uma voz de sarjeta. Sua voz não é bem-comportada, não é de salãozinho. Sua voz arrebenta, treme o mundo”. Falava coisas assim, da estranheza, da minha qualidade vocal e da minha maneira de expressar. E ele sempre ria muito. O que sempre adorei no Vinícius é que, por mais que ele me levasse a sério, e levasse tudo a sério, ria muito.
A sua maneira de cantar não era o padrão da época. Na turma de Vinícius muita gente não gostou...
BETHÂNIA: Pois é. Nara ter me escolhido também é estranho. Nara era uma menina urbana, classe média alta, da Zona Sul. Eu era do interior, voz grave, sotaque, um comportamento cênico caindo para o dramático, fora da bossa nova. Eu sempre queria coisas com elementos de teatralidade, o que era contra a bossa nova. Bossa nova era exatamente o contrário, o mínimo, do mínimo, do mínimo, aquela sofisticação lindíssima, de que eu sempre fui apaixonada, mas nunca me arvorei em ser aquilo. Mas Nara quando me ouviu ainda na fita, durante uma turnê que fazia pelo Nordeste, perguntou quem era. Disse que era eu. E ela me ensinou, na Bahia, sem saber de nada, o “Acender as velas” e o “Opinião”. Por que Nara, com Gal cantando ao meu lado espetacular, bossa-novíssima, escolheu-me? Acho que Nara sempre sentiu que o show “Opinião” era mais para uma intérprete do que para uma cantora. E ela quando me viu, muito sensível, percebeu. E mais: a coisa do nordeste, mais áspera, apesar do chique que ela representava, entendeu que poderia ter uma ligação muito forte, que era uma voz para o “Opinião”.
O que veio pensando no avião?
BETHÂNIA: Eu vim de costas para voltar logo, como disse para o Caetano na hora. Era um avião Viscount, e as primeiras cadeiras eram uma de frente para outra. Juro a você, pensava só que iria me divertir. Todo mundo trêmulo, nervoso, e Tereza Aragão chamou Caetano e disse: “Mas ela está muito calma, como vai ser?”
Mas você não tinha nenhuma consciência do momento?
BETHÂNIA: Tinha consciência demais. Sabia do espetáculo. A minha educação, em casa e artística, combinava com o pensamento, a proposta do “Opinião”. Eu não vim de bobinha, não. Mas eu não pensava em carreira, em sucesso. Quem me dera ser daquele jeito livre para sempre.
Como ouviu falar de Vinícius?
BETHÂNIA: Em audições na Bahia, na casa de Carlos Coqueijo (compositor). Eu adorava ouvir as letras do Vinícius, com o disco “Canção do amor demais”, de Elizeth (Cardoso) , quase morri. E eu já tinha lido a poesia de Vinícius. Quando eu o conheci, fiquei tocada por ser alguém que já parecia conhecer desde sempre.
Ele te formou?
BETHÂNIA: Eu distingui, depois de muitos anos, tão nitidamente quem me deu uma maneira de viver, de estar no mundo, de aprender através da natureza, e quem me ensinou através da arte. Um foi José Eugênio, um rapaz de Santo Amaro muito bonito e muito livre, de uma liberdade que achatava. Ele me adorava e resolveu, como Vinícius, guiar-me sem dizer nada. O outro lado, de conhecer o amor e a vida com a leitura, a audição, a arte foi o diretor de teatro João Augusto que me despertou. E, aqui no Rio, o Vinícius foi uma mistura dessas duas coisas: muito requintado, sofisticado e que tinha um tempo livre para mim.
Por que um disco de Roberto Carlos veio antes de um de Vinícius?
BETHÂNIA: Roberto foi um pedido da minha gravadora na época, a PolyGram. Eu me lembro que falei, quase que deselegante já que adoro Roberto, mas me deu uma dorzinha: “Por que eles não querem o Chico, ou o Vinícius?”. São mais a minha praia. Mas isso não tira a minha imensa admiração pelo Roberto e meu prazer naquele trabalho, dando minha assinatura na obra de dois meninos que penetram no coração do Brasil. Tenho algo parecido com eles, apesar de uma certa postura, uma coisa que pega no popular.
Vinícius é o contrário, o cúmulo da sofisticação...
BETHÂNIA: A contribuição do Vinícius para a música brasileira é algo sem tamanho, sem nome. A qualidade da poesia dele, da letra dele na nossa música, deu uma guiada na nossa geração toda.
Como trabalhou obra tão vasta?
BETHÂNIA: É de morrer de rir. Ligava para Susana e dizia: estamos em 250 músicas e preciso chegar a 14. O que tem mais aí são as minhas escolhas da obra de Vinícius. Por exemplo, o “Astronauta”, música que nunca fez muito sucesso. Mas tem todo o jeitinho dele de falar das coisas. “E a estrela Vênus, sabe ao menos por que brilha mais bonita”. Eu adoro alguém que fique aqui pensando essas coisas. E vem o Baden e musica. Aí fica demais. E a simplicidade? Na verdade, ele devia estar paquerando alguém. Veja o verso “Sim, você é linda porque é”. É um cínico (risos), tudo é sedução. Algumas coisas não poderiam ficar de fora. “Modinha”, por exemplo, “Vai triste canção/Sai do meu peito e semeia a emoção”, é lindo, é a poesia, sabedoria.
Hugo Sukman, Jornal O Globo de 13 fevereiro de 2005