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Maricotinha
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Maria Bethânia (BMG Brasil)
Crítica de Marco Antonio Barbosa
29/8/2001
Maria Bethânia chega aos - na verdade, ultrapassa - os 35 anos de carreira
demonstrando uma capacidade de reciclagem pouco vista entre as vozes de sua
geração. Mas, ao mesmo tempo, ainda que abrace a obra de compositores
novos e faça pé firme para gravar um disco quase que só
de inéditas (ao contrário dos contemporâneos Gal e Dori),
mantém-se fundamentalmente a mesma. Ou seja, sempre em mutação.
A voz mais dramática da MPB nas últimas três décadas
lasca um álbum suave, que atesta sua maturidade estética, vocal
e de escolha de repertório. E também sua capacidade de soar eclética
e sempre coesa, incorporando variadas ambiências sonoras e tornando-as
todas parte inconfundível de sua música.
A sonoridade ibérica - via o violão de Jaime Além - em
Dona do Dom, lírica oferenda de Chico César, é só
a primeira das suaves surpresas de Maricotinha. Alternando climas e sonoridades,
Bethânia desmonta expectativas, mas nunca soa incoerente. Boa parte do
álbum vem num embalo plangente, de arranjos orquestrados e melífluos.
A bela Moça do Sonho, do musical Cambaio, ganha ambientação
luxuosa, com cordas delicadas contra a bela harmonia de Edu Lobo. Mais cordas
dominam as versões de Primavera (esta em uma interpretação
genuinamente emocionante de Bethânia), Quando Você Não Está
Aqui - mais uma da safra temporã de Herbert Vianna, uma bela melodia
quase pop -, Água e Pão e Antes que Amanheça. A riqueza
melódica de Noite de Estrelas, muito valorizada pela modulação
impecável da cantora, merece destaque igual. No outro lado da moeda,
o da rusticidade, destaca-se O Canto de Dona Sinhá, gentil e quase brejeira.
Também rústica, mas menos agradável, é a arrastada
Juntar o que Sentir, de Renato Teixeira. A Bethânia cantora dos desamores
ressurge em Se Eu Morresse de Saudade, um samba sutil de Gilberto Gil. Como
potencial sucesso comercial, desponta Depois de Ter Você (de Adriana Calcanhotto),
de melodia redonda e um belo solo de trompete de Márcio Montarroyos.
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