1) Sua mudança para uma gravadora independente
depois de 35 anos em multinacionais constitui uma atitude sem precedentes na
indústria fonográfica brasileira. O que motivou você a tomar esta decisão?
Tenho muito orgulho de estar na Biscoito Fino, porque é uma gravadora
que tem como principal artista a música popular brasileira. Isso me interessa
e sempre me interessou. A convite de Kati Almeida Braga e Olivia Hime eu acabei
aqui, o que acho muito bom, um luxo, muito sofisticado. E passei por todas as
gravadoras multinacionais que existem no Brasil. Fui e voltei várias vezes.
Estava na BMG e no final do contrato a gravadora não me procurou pra renovar
porque meu contrato era muito caro. Então fiz um acerto com a Kati para fazer
projetos especiais na Biscoito Fino. Logo depois ela me procurou para dizer
que queria a cantora. Um contrato normal, três discos de carreira e mais os
projetos especiais que eu fizesse durante cinco anos. Eu achei aquilo ótimo,
uma boa idéia, porque senti, além do amor à música popular brasileira, uma qualidade
administrativa diferente, apaixonada, encantada pelo trabalho, um lastro firme,
seguro, sem precisar ameaçar o artista. Me senti bem como nunca me senti na
vida.
2)
Maricotinha ao Vivo pode ser considerado tecnicamente um dos discos ao
vivo mais bem realizados na história da MPB. O palco é mais quente do que o
estúdio?
A qualidade sonora do Maricotinha ao Vivo realmente é extraordinária,
porque eu convidei o Moogie para fazer a produção, a gravação, todo o trabalho
sonoro do disco. E ele é um excelente técnico, reconhecido mundialmente e se
apaixonou pelo show. Eu conheço o Moogie há muitos anos, tenho vários discos
feitos com ele, mas ele ficou louco pelo Maricotinha. Gravou as quatro noites
com muita paixão, se divertindo muito. Acho que isso trouxe para o disco um
calor do show ao vivo. E acho que ele merece todas as reverências, porque é
um trabalho realmente espetacular, fora do normal num show gravado ao vivo,
no Brasil ou no exterior. O palco tem uma diferença natural do estúdio. Porque
o estúdio é de uma solidão! Você fica ali sozinha resolvendo, intuindo, enquanto
o palco é o contrário. São milhares de pessoas esperando para compreender, sentir
ou gostar. E aquilo já estimula você a mexer com o seu calor, com a sua energia,
com tudo. Eu amo as duas coisas, tanto o palco quanto o estúdio, com as suas
diferenças. O palco prá mim é o lugar sagrado, onde eu me sinto melhor na vida,
acho bonita aquela coisa, tudo ali é fascinante.
3)
Você costuma dizer que Caetano Veloso e Chico Buarque são os compositores cujas
canções melhor se adaptam às suas interpretações. Que nomes da nova geração
da MPB você considera complementares aos de sua geração e por que?
Eu na verdade, quando falo de Chico e Caetano - e quem sou eu para dizer
que suas canções se adaptam à minha voz? - é porque os dois foram os que mais
confiaram canções à minha voz. Eu me sinto comovida e adoro cantá-los. Eles
são extraordinários. Não precisa eu lhe dizer, todo mundo sabe. É isso. Eles
são os mais importantes da minha vida profissional porque foram os que mais
me deram canções. Isso foi fazendo a minha história. Sou uma intérprete que
aprendi a cantá-los, a interpretá-los e talvez eu me sinta mais em casa nas
suas canções. Eu acho assim: tem uma coisa meio errada no Brasil que é “quem
substitui ou quem corresponde a Chico e Caetano na geração nova?”. Eu acho que
por aí a pergunta fica errada. Existe renovação na música popular brasileira?
Eu acho que existe e existe da melhor qualidade. Agora, fica parecendo que a
nova geração está devendo porque quer se comparar. Seria a mesma coisa dizer
de Caetano, Chico, Gil, Milton quando apareceram, esta geração deslumbrante,
“não é igual a Caymmi, a Noel Rosa, a Ary Barrozo”. E não são mesmo. São diferentes.
O mundo é outro hoje. Então a nova geração tem que cantar o que o mundo lhe
oferece. É muito mais duro do que era na nossa época, muito mais frio, mais
neutro. Na nossa época era muito envolvimento, muita paixão, sonho, quer dizer,
a nossa geração viveu muito isso. Mas acho que na nova geração de compositores
e cantores no Brasil temos o Lenine, extraordinário, Adriana Calcanhoto, Chico
César, Vanessa da Mata. São artistas muito fortes. Ana Carolina, a Cássia Eller,
prá mim a maior expressão, mas era mais uma intérprete do que uma compositora,
talvez por isso ela tenha me tocado tanto sempre. Mas acho que todos estão fazendo
de maneira tão própria, tão firme e tão expressiva na sua maneira de ser. Mas
se ficar esperando que o Chico César componha igual ao Chico Buarque vai dar
confusão.
4) A sua seleção de poesias é tão rigorosa quanto a das músicas?
Você lê muito, costuma descobrir novos autores tanto na literatura quanto na
música?
Eu ouço os discos quando chegam: dos colegas, dos principiantes, dos anônimos,
dos famosíssimos. Faço a minha seleção ali. Gosto de música negra americana,
gosto da nossa música. E leio. Ultimamente não tenho lido muito não. Quando
eu viajo eu leio um pouco mais. Me estimulam as livrarias fora do Brasil. São
lindas e fico fascinada com os espaços, a facilidade que você encontra. Vou
comprando e lendo. Mas o meu rigor tanto para música quanto para poesia é a
emoção. Se emocionar, eu falo ou canto.