Maria Bethânia sob o olhar de Luiz Carlos Maciel
De todas nossas cantoras modernas, Maria Bethânia é a que melhor comprova o poder da tradição. Ela é a herdeira direta de uma linguagem espiritual que vem de Dalva de Oliveira, Elizete Cardoso, Ângela Maria, Sylvia Telles e outras grandes cantoras brasileiras. E evidencia aquela continuidade que é a condição das rupturas, aquele chão que permite o vôo. Nela, tal chão é fértil demais. A força emocional de Maria Bethânia é menção obrigatória para todos os que se metem a escrever sobre a MPB e seus melhores artistas. Seu poder é indiscutível. É impossível ouvir Bethânia sem ser tocado por esse poder. Há mais. Essa arte não é apenas poderosa e irresistível. É também matizada, vária, flexível, rica, sutil, cobrindo o inteiro espectro de nossas próprias emoções. Bethânia é sucessivamente e, muitas vezes, simultaneamente: terna, feroz, alegre e sofrida. Oferece-nos suas canções, às vezes, como quem serve chá; ou, outras, como quem bate uma porta para nunca mais voltar; ou, como uma criança que brinca; ou como uma mulher. Uma mulher! Esse é o traço fundamental da personalidade artística de Maria Bethânia: ela é feminina, lunar, inconstante, isto é, mutável, como a Mulher com letra maiúscula. Encarna num grau transbordante como: Billie Holiday, Piaf, Dalva, poucas outras - o princípio Yin dos orientais, isto é, a divindade escura, úmida, receptiva, É mulher - e, ainda por cima, do signo de Gêmeos. O que é uma mulher? No I Ching, há quatro trigramas femininos. Kun, a mãe, é o princípio receptivo em sus plenitude; Sun, a filha mais velha, é suave; Li, a do meio, é bonita; e Tui, a mais moça, é alegre. Em Carlos Castaneda, as guerreiras também são quatro. A do leste é leve e persistente; a do norte é rude e tenaz; a do sul é tímida e calorosa; a do oeste é astuta e dissimulada. Pouco importa, porém, quanto e como o conhecimento humano investiga a alma feminina. Uma arte como a de Bethânia a compreende instantaneamente, sem mediações, em todos os seus perigosos e encantadores aspectos. Estão lá, no calor de sua voz, os quatro trigramas femininos do I-Ching, as quatro guerreiras de Castaneda, as quatro direções, os quatro cantos de um quadrado, os quatro humores, os quatro ventos, refletindo as quatro personalidades femininas diversas existentes na raça humana. O que acontece, então? Nesta canção, Bethânia mergulha numa direção; naquela, explora outro território; numa terceira, forja sínteses surpreendentes. É capaz de tudo, exceto afastar-se da maneira de ver da mulher, de seu sentimento do mundo. Por isso tudo, claro, é que Maria Bethânia tem um público feminino tão grande, mulheres que simplesmente sentem nela uma expressão profunda de si próprias. Essa identificação vamos reconhecer, encontra base em certas canções escritas por homens (Chico, Caetano, Gonzaguinha etc), mas mesmo nelas, o que conta - e o que dá conta dos poderes da cantora - é o sentimento além do signo. Maria Bethânia é o avatar da revelação feminina, no universo de nossa música popular.