Maria
Bethânia (Biscoito Fino) Crítica de Marco Antonio Barbosa
A embalagem do CD - Digipack, gordinha, imponente - já dá conta do
tom de reverência na qual a estréia de Maria Bethânia no selo Biscoito Fino
vem envolvido. Maricotinha Ao Vivo é o registro comemorativo dos 35
(na verdade, 37) anos de carreira de Bethânia, um disco ao vivo muito aguardado
em um ano coalhado de discos ao vivo e também um marco em termos de mercado:
afinal, trata-se da concretização da passagem da diva da multinacional BMG para
a brasileira (e nanica, comparativamente) Biscoito. O disco vem carregado de
tantas questões e significados (além da própria aura da cantora, a qual dispensa
comentários) que chega a ser difícil abordá-lo racionalmente. Os fatos brutos
são os seguintes: trata de um CD duplo, com 49 (sim, 49) faixas, gravado há
quase um ano, produzido por Moogie Canazio e com direção musical de Jaime Alem.
No roteiro, Bethânia repassa sua carreira praticamente de ponta a ponta, de
Opinião às faixas de Maricotinha, entremeadas a textos em
prosa e poesia. Tudo é luxo só, da apresentação gráfica à performance da banda
de nove músicos. Há poréns, porém. Um certo cansaço toma conta do ouvinte. A
longa duração da obra contribui para tanto. Assim como o conservadorismo suntuoso
da instrumentação. Mas também o excesso de registros ao vivo de Bethânia, nos
quais (quase) todas essas canções foram vistas e revistas mais de uma vez. Além
do inevitável fosso entre a voz de Bethânia - aqui, vívida e cheia de fôlego
como sempre - capturada em disco ao vivo e a sensação de poder assistí-la in
loco. O registro digital sempre fica com um tom de simulacro. Bethânia
ao vivo é imprescindível; outro (mesmo) disco ao vivo de Bethânia, ainda mais
com esse (mesmo) repertório, nem tanto. Conselho: ouça Maricotinha ao Vivo
devagar, para que o tamanho do disco não assuste (um mal que prejudicou Noites
do Norte Ao Vivo, do mano Caetano). Desse jeito, picos de emoção como a
versão renovada de Sobre Todas as Coisas, ou a recriação de belezas
subestimadas como Casinha Branca e Nossa Canção podem ser
melhor aproveitados. Claro que nunca é demais reouvir a diva em passagens como
Álibi, Ronda, Anos Dourados ou Apesar de Você. Mas é nas pequenas
surpresas, como nos trechinhos de A Moça do Sonho (com andamento diferente
da versão de Cambaio), na versão de Baila Comigo e no resgate
de Coração Ateu, é que Maricotinha Bethânia realmente vive.